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Tornar a novidade em rotina, fazer da rotina uma novidade

17/07/2019 | Susana Marvão, jornalista

Não estamos propriamente a falar de saltar de avião. Ou de fazer bungee jumping no famoso Canal de Corinto, na Grécia. Não estamos a sugerir uma viagem até ao Nepal ou experimentar a pimenta Red Savina Habanero, considerada das mais picantes do mundo. Falamos, sim, de novas experiências que podem passar por provar uma nova comida, fazer uma atividade desportiva que nunca tenha realizado ou começar um novo hobby. Ou seja, a ideia é fazer uma coisa que nunca tenha feito antes. E tornar o ato de experimentar a novidade, uma rotina. E, melhor ainda, tentar que a rotina se torne uma novidade.

Como a novidade nos motiva

Provavelmente já ouviu falar sobre a dopamina e os seus efeitos no cérebro. Muitas vezes, é considerado o "produto químico da recompensa" ou parte do "centro de recompensas" do cérebro. Mas pesquisas mais recentes citadas em revistas da especialidade sugerem que o que nos motiva é a procura pela recompensa e não a recompensa em si. Estudos em animais em torno da reação do cérebro à novidade sugeriram aumento dos níveis de dopamina no contexto de algo novo. Assim, o cérebro reage à novidade libertando este neurotransmissor, o que nos faz querer explorar algo em busca de uma recompensa.

“Usemos os jogos de vídeo como exemplo”, explicou-nos Daniel Marinho, psicólogo e investigador na área da neurociência. “Queremos subir de nível na esperança da recompensa de desbloquear uma conquista ou ganhar mais pontos. Cada novo estímulo dá-nos um pouco de motivação para explorar, porque faz-nos antecipar uma recompensa”.

A transição deste exemplo para o mundo real não nos dá, como nos jogos de vídeo, medalhas ou pontos, nem nos faz subir de nível. Mas pode dar-nos uma sensação de bem-estar e contentamento essencial ao conceito de felicidade, para além de trazer agilidade mental, fator fundamental, sobretudo quando falamos de pessoas da meia-idade. “Não estou a dizer para se fazer uma infindável lista de coisas a realizar. Isso seria prejudicial, porque pode provocar níveis de ansiedade caso a lista não seja cumprida. Mas ter como rotina fazer algo de novo, seja o que for, e ser consciente disso, contribui claramente para a agilidade e vigor mental”.

E quem não gosta de experimentar?

Temos mais receio de um resultado desconhecido do que de um mal conhecido. Esta é a conclusão de um estudo que explana o comportamento do homem face a novas situações. Ou seja, somos capazes de ter mais medo de entrar numa sala escura, porque não sabemos o que lá está, do que picar o dedo numa agulha, pois temos a certeza que nos vai doer. É assim a mente humana. E se eu não gostar deste novo prato? E se este país estrangeiro for perigoso? Ou, pior ainda, e se eu fizer uma figura ridícula? Estas são algumas das razões que usamos – todos, sem exceção – para justificarmos não experimentar novas coisas e ficarmos na eterna zona de conforto. Daniel Marinho é da opinião que o ideal é não cair em exageros. “Devemos ‘forçar-nos’ a experimentar coisas novas. Que nos estimulem e nos aportem sensações. Tal como devemos – se tivermos predisposição para continuamente procurar o ‘Santo Graal’ - tentar encontrar algo que nos satisfaça e mantermos essa atividade algum tempo”.

O objetivo final, indica o investigador, é que, de forma consciente, introduzamos na nossa rotina alguma novidade, ao mesmo tempo que tentamos encontra alguma novidade na nossa inevitável rotina.

 

João Gata, 53 anos, escritor

“Senti-me um jovem radical”

Aos 53 aos, João Gata, escritor e blogger, experimentou andar pela primeira vez de scooter este ano. “O desafio foi-me colocado por uma marca de lambretas que, ao ler alguns posts pessoais em que apontava as ‘vespas’ como solução para a locomoção alfacinha, convidou-me para testar, experimentar, rodar uma nova scooter”.

Sabem a adrenalina da primeira vez? O medo, os temores, o receio, as dúvidas? Pois, João Gata sentiu tudo isso. “A primeira vez que se faz algo na vida é uma coisa estranha. Entra-nos pela pele, fica a fazer parte de nós, integrante, da história de todos os dias. Nunca tinha guiado uma mota. Nem um ciclomotor!”.

Mas não foi por isso que não abraçou o desafio. “Aprendi a fazer oitos na prevenção rodoviária durante uma manhã. Depois, bom, fui até ao stand levantar a ‘máquina’, bem bonita, cinzenta, com ABS e tudo. Mas gostei. Gostei muito e senti-me um jovem radical. Próximo passo: ‘tagar’ [pintar] umas paredes”.

Dicas de atividades: Da palavra à ação

Podem ser coisas bem simples e que provavelmente a maioria até está disponível no seu bairro. Ou pelo menos perto da sua casa. Tente experimentar uma aula de danças de salão. Ou inscreva-se num workshop de culinária, ou melhor, de sushi que está tanto na moda. Vá até ao mar e arrisque-se no surf, uma aula de yoga ou uma sessão de mindfullness. Ir de trotinete até ao trabalho. Jantar num restaurante com estrelas Michelin. Desafie um amigo para uma partida de padel ou stand up paddle. Vá a um museu, ao cinema ou a um concerto sozinho.

Damos aqui 12 sugestões. Já tem programa para um ano.