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TEODORA CARDOSO Economista da resistência pacífica

06/05/2019 |

Entrevista a Teodora Cardoso, ex-administradora do Banco de Portugal e ex-presidente do Conselho das Finanças Públicas

No seu jeito low profile, habituou-nos a opiniões sem rodeios sobre a economia portuguesa por gostar de ser verdadeira e frontal. Quebrou barreiras, sim, mas sempre com estratégias discretas e poucos folclores. Maria Teodora Cardoso nasceu em Estremoz, no ano de 1942, tendo vindo viver para Lisboa aos três anos de idade. Gostava de estudar tendo escolhido economia apesar de também gostar de letras. É perfeitamente bilingue, português-inglês. Fez o seu caminho sem grande estrondo, mas sempre superando obstáculos com uma resistência que diz ser pacífica. “Nunca andei metida em guerras, mas não deixo de tentar levar a minha posição. As guerras exigem uma ideologia prévia e eu nunca andei a defender uma ideologia pré-concebida, a minha posição foi sempre de olhar para os problemas e procurar resolvê-los. Em economia temos de olhar para os dados, perceber como se chegou lá e procurar soluções para essas causas, muitas vezes olhando para outros exemplos. Nisso, sou irredutível”.

Foi a primeira mulher a fazer parte da administração do Banco de Portugal (BdP), instituição onde esteve entre 1973 e 1992.

Mais tarde, Teodora Cardoso foi consultora da administração do BPI e integrou o conselho consultivo do IGCP, a agência que gere a dívida pública. As mais recentes funções que assumiu foram as de presidente do Conselho das Finanças Públicas, entre fevereiro de 2012 e março de 2019.

Ao longo das quase duas horas que estivemos à conversa, a imagem que passou é de alguém muito mais novo, não só em termos de discurso como em termos físicos, com uma vivacidade e uma conversa que em nada indicia os 77 anos de idade que atualmente tem. Enquanto estávamos a realizar a nossa entrevista, recebeu 2 encomendas entre as quais uma da Amazon, onde confessou serem livros em francês que não existiam ainda no Kindle e daí ter comprado as edições físicas. Sim, pois a sua leitura ideal é no digital.

Papel fulcral no pós-25 de Abril

Ingressa no BdP por indicação do economista Ernâni Lopes seu colega de curso, pois não existiam técnicos disponíveis devido aos conflitos do ultramar, deixando assim a porta aberta à entrada das mulheres, situação vedada até então. Assim em 73, Teodora Cardoso e Helena Sacadura Cabral entram nas fileiras do BdP, tendo sido as duas primeiras mulheres a exercer funções técnicas neste organismo. Apesar do desafio, segundo a nossa entrevistada, “o banco no início, tinha uma atividade muito limitada e de rotina. De tal maneira que comecei a procurar oportunidades no estrangeiro, que era para onde teria ido se não se tivesse dado o 25 de Abril”.

Trabalhar num organismo como a OCDE era, então, o objetivo da economista, mas a revolução de 1974 mudou as contas da profissional. “De repente, o cenário passou de rotineiro para a confusão total e eu devo dizer que nunca me dei mal com a confusão, porque nessas alturas é preciso cabeça fria e não estar vinculado a ideologias. Isso prende-nos”.

A economista garante, aliás, que nunca acreditou em dogmas. “Talvez tenha aprendido isso desde cedo com as leituras que fiz de literatura em língua francesa e inglesa, mas também portuguesa, de autores críticos da sociedade e que me levaram a querer pensar por mim”.

No BdP do pós-25 de Abril, foi esse espírito independente e o facto de ser fluente em inglês, o que não era vulgar na altura, que permitiram a Teodora Cardoso destacar-se. “Foi aí que eu aprendi economia. O que aprendi em económicas foram os princípios básicos, que estavam muito longe de levar a resolver os problemas que surgiram no país naquele período”.

 

Possível livro na forja

Saída há pouco da missão no Conselho das Finanças Públicas, é uma pessoa bastante ativa. Começou a trabalhar com 22 anos, portanto com 55 anos de vida ativa, não fazendo tensões de parar por aqui. Uma ideia que está a amadurecer é um livro sobre a mudança económica de Portugal depois de 1974. “Sou dos poucos ‘sobreviventes’ que estiveram dentro do que se passava desde antes do 25 de Abril. Hoje, falando com estudantes, percebo o quão importante é a existência desta memória. Essa história está muito perdida e é algo que acho que tenho de pensar seriamente em elaborar. Ainda não sei muito bem como”.

Para idealizar a forma como pode contar essa história, precisa de tempo, um bem escasso na sua vida da economista. “Apesar de não estar na vida ativa [desde março], há sempre solicitações, que se opõem ao tipo de esforço sistemático e organizado que preciso de fazer”, explica a ex-administradora do BdP, antes de referir que é, “das poucas pessoas” em Portugal capaz de contar a história da passagem económica entre antes e depois do 25 de Abril.

Interesses importantes no envelhecimento

Questionada sobre os conselhos a deixar para um melhor envelhecimento, Teodora Cardoso destaca a importância de manter interesses. “O pior de tudo é as pessoas pensarem que chegam à reforma e ficam a viver bem. A maioria fica a viver muito mal. E esta não é uma questão só material. Mesmo com algum rendimento, temos que ter alguns interesses na vida. Se não, não faz mais nada do que estar em frente à televisão e as pessoas assim não conseguem ser felizes”.

Manter um papel útil à sociedade é também destacado pela economista. “Todos nós, para nos sentirmos bem connosco próprios, temos de sentir que somos úteis. É claro que depois os avós ficam a cuidar dos netos, mas a vida também não pode ser só isso. Enquanto estão a trabalhar, as pessoas têm de pensar que a vida não é só o emprego. Depois, na reforma, também têm de ter centros de interesse. Esta preparação deve, idealmente, ser feita ao longo da vida e não apenas quando chega à reforma”.

 

“Portugueses têm de preparar-se para complementarem a reforma”

Os cidadãos que trabalham têm direito, mais tarde, à reforma. No entanto, com uma maior esperança média de vida e uma menor taxa de natalidade, as pensões podem ser um problema dentro de algumas décadas em Portugal. Teodora Cardoso considera que “as pessoas têm de preparar-se para complementarem a reforma” da segurança social.

“Se formos querer aumentar as contribuições para a segurança social, temos aí um custo adicional de trabalho que torna o país pouco competitivo. Além disso, o nível de impostos também é alto. Portanto, não temos margem por essa via”, explica a economista.

“Ou seja, as pessoas têm de trabalhar até mais tarde e pouparem”. A ex-presidente do Conselho das Finanças Públicas defende que o Estado tem aqui a responsabilidade de consciencializar as pessoas para a realidade. “Os políticos não podem dizer que não há problemas, porque no curto prazo é mau politicamente, pois isso não ajuda nada no futuro”.

A entrevistada salienta que “haverá sempre os cidadãos sem capacidade alguma de poupança e que a esses o Estado terá de auxiliar, mas esse auxílio não pode ser proporcional em toda a pirâmide”.

O que importa, conclui Teodora Cardoso, neste campo como no da saúde, é haver estratégia de médio e longo prazo.