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SIMONE DE OLIVEIRA Força da Natureza

05/08/2019 |

Simone cantora. Simone atriz. Simone artista. Simone lutadora. Simone mulher.

Um par de horas com Simone de Oliveira é ter uma lição de história da música e teatro em Portugal. Mas é também perceber que, aos 81 anos muito bem conservados, irradia energia. Mulher de fibra e frontal, com uma vida cheia de palco, a cantar ou a representar, foi sempre uma pessoa à frente do seu tempo. Uma força da natureza.

Falar de Simone e referir apenas uma música é, claro, redutor. Não há, porém, como não dar destaque ao tema com que, em 1969, venceu o Festival da Canção. A Desfolhada abordou, há 50 anos, o tema da emancipação feminina, algo pouco visto na sociedade portuguesa do pré-25 de Abril.

Olhando para trás, surpreende que tenha passado no crivo da censura. “Não tinha consciência do impacto, até político, que a música viria a ter. Nem me passava pela cabeça”. Ainda hoje Simone de Oliveira continua a cantar todas as músicas com intenção de chegar às pessoas. “Quando falo ou quando canto, dou alma, vida e coração, dou tudo o que tenho às pessoas”.

Por dentro, continua a ser a menina que corria na então rural zona dos Olivais, em Lisboa. “Há uma décalage entre a pessoa que sou por dentro e os 81 anos de idade que tenho. Fazer essa gestão, sem fazer ridículos ou armar-me em dramática, é difícil. Mas acho que consigo”.

 

Infância feliz

Simone de Macedo de Oliveira teve uma infância e adolescência muito felizes. Viveu até aos dez anos numa quinta nos Olivais, onde o pai era gerente de uma fábrica de moagens, e mais tarde no centro de Lisboa. Divertida e brincalhona, a pequena Simone cantava já, a pedido da professora, na escola primária.

No entanto, ainda não lhe passava pela cabeça vir a seguir a vida artística. “Nunca tinha pensado em cantar, de todo. Pensava em casar e ter filhos, que era no que as mulheres à época pensavam”. Hoje, a realidade é diferente, diz, embora sublinhe “ainda não há igualdade”.

A decisão de carreira chega mais tarde e por “receita médica”, depois do primeiro casamento, aos 19 anos, que durou apenas dois meses, pois fugiu de casa, por violência doméstica. “Os meus pais foram sempre um esteio para mim, mas nessa altura ainda mais. Estava psicologicamente frágil. O médico não sabia o que fazer-me. A minha irmã disse ao meu pai ‘ela tem uma voz tão bonita’, mas ele opôs-se. Até que a minha mãe lá o convenceu e ele cedeu. E vai ele próprio ao Centro de Preparação de Artistas da Rádio da Emissora Nacional falar com o diretor, o tenor Motta Pereira, e dizer ‘vou pôr aqui a minha filha três horas por dia, por este motivo, não é para ela trabalhar’. E lá fui eu”.

Duas semanas depois, estava num programa de rádio. Dois meses depois, na RTP. O resto já sabemos.

Perder a voz, reagir “alto”

Um dos maiores momentos de dificuldades da carreira de Simone de Oliveira foi quando perdeu a voz. Foram três longos anos. “Foi muito difícil, mas foi uma das coisas boas que me aconteceu, porque tive de reagir”.

Foi convidada para escrever num jornal e para fazer uma peça onde não precisava de cantar. “Lá estão os meus ‘arcanjos’. Toda a minha vida foi assim. Nunca pedi para fazer uma coisa. Mas também nunca disse ‘não faço’ ou ‘não quero’. E sempre tratei bem as pessoas que me ajudam em palco”.

Todas as contrariedades – teve dois cancros – foram vividas com otimismo. “Nunca pensei que fosse morrer”.

Simone foi sempre uma mulher bonita e com algum, “não demasiado”, cuidado com a imagem. É, de resto, esse o conselho que deixa às pessoas. “Temos de gostar de nós. Gosto de mim o suficiente para ter esta idade e dizer, vou levantar-me e tomar o meu duche”.

Excelente relação com os netos

Além do primeiro casamento, Simone de Oliveira teve outros dois relacionamentos importantes. Um com António José Coimbra Mano, pai dos filhos Maria Eduarda e António Pedro, e outro, que destaca, com o ator Varela da Silva.

Tem quatro netos, todos rapazes, com 30, 29, 23 e 16 anos. São ou foram “brilhantes alunos” e, “graças a Deus”, não têm ligações ao meio artístico (preferem as engenharias).

A relação é excelente. “Esta avó não tem nada a ver com as avós comuns. Não sou a avozinha nem a vovó. Sou a avó ou sou a Simone. Conversam comigo sobre tudo. Quando querem falar comigo sem os pais verem, faço-lhes um sinal. Por outro lado, jamais contrariei uma atitude dos meus filhos em relação aos meus netos, não fui uma avó de desmanchar, ao contrário do que por vezes acontece”.

Mulher de “mangas arregaçadas” e sempre pronta a abraçar novos reptos, nunca fez férias no sentido clássico do termo, pelo menos. Apesar da vida sempre com diferentes projetos em curso, Simone de Oliveira não deixa de ter rotinas, como a escolha de local quando não janta em casa. “Janto há 34 anos no mesmo sítio, no Bairro Alto, no mesmo restaurante, na mesma mesa, sentada na mesma cadeira. No restaurante Põe-te na Bicha. A mesa está sempre reservada até às 9h15 da noite. E não pago um tostão, não me deixam”.

Continuar a trabalhar

Sem preferência entre as duas paixões, cantar e representar, destaca com notória dificuldade que trabalhos lhe deram mais prazer. “Gostei muito de fazer a Tragédia da Rua das Flores, o Amália, o Marlene Dietrich e o Simone, o Musical”.

Simone de Oliveira pretende para o futuro o que teve no passado: cantar e representar. “Gostaria de fazer um monólogo e um papel cómico”.

Quer cumprir esses projetos, mas também não se mostra demasiado preocupada em concretizá-los. O que pretende realmente é continuar a ser feliz, rodeada por amigos e família.

Tudo isto com a serenidade da missão cumprida… em palco. “Sei viver sem palmas, pois há muitas formas de ter uma salva de palmas”.