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Ser ou estar feliz... afinal o que é a felicidade?

02/08/2019 | Nuno Colaço Doutorado em Neuropsicologia.

Há muito que se escreve acerca da felicidade. Continua a escrever-se e irá escrever-se ainda mais. É um dos temas mais difíceis de se definir e ainda mais de se estudar. O que faz com que tudo possa estar errado... mas também que tudo possa estar certo. Não sei. E não sei se há alguém que o saiba. Aquilo que sei é que existe.

Durante muito tempo considerou-se inalcançável, ou uma utopia, ou um mito, ou uma insanidade. Ser e estar feliz não estaria ao alcance dos seres humanos. Estaria para além das suas possibilidades... e apenas nos seus mais secretos sonhos a poderiam almejar. Ao longo da pós-modernidade, com o aprofundamento e alargamento do conhecimento – formal e informal –, o tema foi-se tornando progressivamente mais interessante, ao ponto de ser colocado como objeto de estudo e de investigação. Este estudo e de investigação, atualmente muito diversos e profícuos, em nada são, porém, consensuais e muito menos conclusivos. É muito difícil, ou mesmo impossível, chegam alguns a afirmar, determinar o que é a felicidade. Existe, mas não se sabe exatamente o que é.

Ora, não sou eu, aqui e agora, que o vai conseguir fazer. Apenas, do meu ponto de vista, poder sugerir que existe e que é possível ser e estar feliz. Não como uma experiência contínua e permanente, nem tão pouco como um estado sobrenatural. É ser e estar. Num dado momento, num determinado lugar, a propósito da vivência de um conjunto de emoções e pensamentos. Que pode ser repetida... ou não.

E é particular a cada ser humano, ou seja, o momento varia de pessoa para pessoa, o lugar também, assim como as emoções e os pensamentos. Aquilo que pode ser considerado felicidade para um determinado ser humano, pode não o ser para um outro que até pode estar no mesmo tempo e no mesmo espaço. Ali mesmo ao lado. E mesmo o conjunto de emoções e pensamentos que numa determinada pessoa foram considerados, num dado momento, e num determinado lugar, como felicidade, podem deixar de sê-lo no tempo e no espaço imediatamente a seguir. Estes são apenas alguns dos aspetos que levam a que a felicidade seja tão atrativa, mas, em simultâneo, tão difícil de definir. Não é objetivável, não é estável, não é definitiva. Logo, não há uma definição. Há possíveis definições. Mas apenas isso. Possíveis.

 

Felicidade existe

Então porque continuar? Porque, a meu ver, ser e estar feliz é possível. A felicidade existe e estar e ser feliz é possível. Quando e como? É igualmente difícil...

Do ponto de vista psicológico, é ser o que se é, no momento em que se é e que se está vivendo, sendo e estando com tudo o que se é, com tudo o que se está e com aquilo que se tem. No momento. Num espaço e num tempo. Parece inalcançável... Mas não é.

Em qualquer idade é possível procurar e encontrar a harmonia psicológica que permitirá viver, experimentar e agir a personalidade, com a fluidez, a harmonia e o cuidado necessários para que, um dado momento, num determinado lugar seja sentido e pensado como pleno. Pode ser fugaz, pode ser efémero, mas feliz. E deste ponto de vista, o meu, sublinho, é possível.

Até é mesmo possível que existam mais momentos em que eu estou e eu sou feliz, mais do que aqueles que eu poderei detetar. Porque posso estar distraído, posso estar anestesiado, posso estar submerso, posso estar alheado. E esses momentos, que poderiam (e ainda poderão) constituir-se como seres e estares de felicidade, passam desapercebidos. E como podem não repetir-se – e mesmo que se repitam podem não ser a mesma coisa – acontece que os seres e estares de felicidade podem estar aí e eu posso estar a estar e a ser no momento e no lugar nos quais não os vivo. E isso não me parece bem. O que faço... Não olho apenas para um lugar ou apenas para um momento. Olho para todos os momentos possíveis e vivo todos os momentos possíveis. Exploro todos os pensamentos e todas as emoções possíveis – e sublinho possíveis – e vivo o que a vida me convida a viver. Danço com a vida. Mas não posso, nem quero, aprender todas as danças de todas as músicas que a vida pode tocar. Mas tenho uma ideia das possíveis.

Assim, quando a música toca, e eu decido dançar com a vida – porque posso decidir não querer dançar –, atrevo-me. Melhor ou pior lá me ajeitarei. Se correr bem, ótimo. Caso não, venha a próxima. E, assim, de dança em dança, de momento em momento, de lugar em lugar, vou acumulando fiapos de felicidade. E ao juntar todos esses fiapos, num dado momento e num determinado lugar, talvez eu olhe para todos eles e, aí, talvez descubra que fui feliz. E nesse momento e nesse lugar, é certo que serei e estarei feliz!