Introduza o seu e-mail

Ser cuidador de estranhos

30/09/2019 | Ana João Sepulveda Socióloga, 40+Lab Managing Partner

Quem, como eu, que já trabalha na área da economia da longevidade há mais de dez anos, é, por vezes, “assaltada” pela soberba e acha que muito pouco ainda pode surpreender. Passei por esse cenário uns poucos anos, numa situação relacionada com os cuidadores informais.

Estávamos a trabalhar num projeto e queríamos estudar as necessidades das pessoas com mais de 60 anos. Um dos temas que analisámos foi o do cuidador informal. Queríamos saber quem eram estas pessoas. Eu achava que o número de pessoas que se assumem como cuidadores informais de não familiares ou amigos era muito baixo, menos de 5%. A verdade é que não era assim.

Surpreendeu-me a percentagem daqueles que são cuidadores de vizinhos e de outras pessoas com quem não têm laços de amizade muito significativos. Ao ver aqueles números e pensar sobre o tema, recordei-me de um projeto que vi na Irlanda, onde o Governo local levou a cabo um estudo à população para saber que necessidades tinham do ponto de vista relacional e social, bem como o que estas mesmas pessoas tinham para dar à comunidade.

O resultado foi um projeto que promoveu os laços de vizinhança e de sociabilidade e a sustentabilidade, tirando o máximo partido do que as pessoas têm para dar umas às outras. Trata-se de um projeto que deveria ser replicado não só por toda a Irlanda, mas também por cá, onde as pessoas dos escalões etários mais avançados sofrem de solidão e isolamento.

 

Impactos positivos da demografia disruptiva

Porque hoje também eu sou cuidadora informal de uma senhora que vive na minha freguesia, tenho refletido sobre os impactos positivos da chamada “demografia disruptiva”, em especial naquelas regiões onde é significativa a percentagem de pessoas com mais idade a sofrerem de solidão, isolamento e pobreza. Por isso, quando me foi proposto escrever este artigo, achei que era uma excelente oportunidade de partilhar os meus pensamentos a este respeito.

Noto que há uma tendência para reforçar os aspetos negativos em detrimento do lado positivo.

Um desses aspetos positivos é o da maior humanização da sociedade. Afinal, o que nos leva a sermos zelosos cuidadores informais de alguém que nem sequer no nosso prédio mora?

Porque somos feitos de coração e porque somos seres gregários, uma das boas consequências da longevidade é a promoção dos laços de sociabilização, que tem o efeito de promover a sustentabilidade da sociedade.

Assim, é muito bom pensar que há cuidadores por aí com o coração cheio porque ajudam outros, além dos seus familiares, e que com isso sentem que estão a ser mais pessoas, pessoas mais positivas.