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27/09/2019 | Sofia Alçada - Diretora executiva Impulso+

Começo por uma história. Uma história acerca de um costume antigo, em que os filhos levariam os pais já velhos, que não podiam trabalhar, para o cimo de um monte onde ficavam sozinhos, para morrer à míngua. Certa vez um jovem ao abandonar o pai no destino deu-lhe uma manta para que se abrigasse do frio. E este perguntou; Tens por acaso uma faca contigo? Tenho, respondeu o filho perplexo. Para que a quer? Para que a cortes ao meio e leves metade para ti, para o dia em que o teu filho te trouxer para este lugar. O rapaz ficou pensativo, tomou o pai às costas e voltou com ele para casa, fazendo assim, com que o horrível costume desaparecesse para sempre.

Quando começámos a trabalhar este tema do ser cuidador, recordei esta fábula e do quanto eu gostava de ficar com os meus avós que cuidavam de nós quando os meus pais não estavam e de como os meus filhos gostam de estar com os avós, sempre que eu preciso. A verdade é que ao longo das nossas vidas muitas são as fases e estatutos por que passamos, quer pessoais quer profissionais, onde assumimos papéis distintos e, para o caso, somos cuidados ou somos cuidadores.

Se é inquestionável o prazer em cuidar de um bebé, tomar conta dos nossos pais ou de familiares idosos é uma tarefa menos consensual, mas tão ou mais importante. É a ordem natural da vida ou, pelo menos, deveria ser. Poder retribuir a quem tanto nos deu ao longo da vida, da mesma forma, com o mesmo gozo e com a mesma capacidade de entrega que fomos recebendo ao sermos cuidados, deveria ser um privilégio.  

Ser cuidador é sem dúvida uma atividade que pode ser de grande exigência, que requer uma enorme disponibilidade a vários níveis. Capacidade de escuta, de entrega, muita persistência e resiliência e acima de tudo, uma grande humanidade, amor ao próximo e também algum conhecimento. Sermos responsáveis por alguém, ou seja cuidar, tratar e apoiar é a demonstração de amor mais elevada que um ser humano pode sentir pelo próximo, como afirma Luísa Pinheiro da Associação Cabelos Brancos, com a qual não posso estar mais de acordo.

Esta humanidade e capacidade de entrega deve ser cada vez mais promovida e valorizada. Seja ela formal ou informal. Devemos ter atenção aos outros, a quem nos rodeia e se cruza connosco e ter um papel mais presente e ativo na sociedade até para que, quando chegar a nossa altura, possamos ser cuidados com todo o carinho e entrega de quem soube cuidar.

Trata-se de repensar a nossa sociedade... entre outros repensar a questão de ser cuidador, lançando a base para o novo estatuto do cuidador informal. E por cuidador informal entende-se uma pessoa, familiar ou amigo, que assume os cuidados de uma pessoa dependente (criança, mais velho, deficiente ou doente), fora do âmbito profissional e sem qualquer contrapartida financeira.

Assim, convido-vos a cuidar bem dos outros, pois um dia seremos nós a ser cuidados. E que quando esse dia chegar, que possamos receber o mesmo carinho e dedicação, que demos, enquanto cuidadores.