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HENRIQUE MOREIRA Sossegar em Marte aos 140

08/07/2019 |

Começa cedo a jornada de trabalho de Henrique Moreira pelos corredores da empresa, dizendo, com um sorriso e uma vivacidade de quem adora os desafios de um novo dia e de um recomeço… “Bom dia!”

Nascido em 1946, é sem dúvida um exemplo de que a idade é apenas um número que acaba por ter pouco significado. No fundo, é o que se quiser que seja. Está à frente de uma série de projetos, em várias empresas do Grupo ANF, nas áreas da inovação e transformação, integrando várias equipas onde o lema é: entrega, partilha e cooperação.

Homem de família, de equipa e de projetos, é um fazedor, um “disruptor”, como lhe chamam. Com uma energia inesgotável (já em miúdo diziam que tinha bichos-carpinteiros), a sua dedicação e vontade de ser útil não tem limites. Os mais próximos já desistiram de lhe perguntar: “Quando é que tu sossegas?”

Dedicado e íntegro, alimenta-se dos erros (dos seus e dos outros) para aprender e para evoluir: “Errar obriga-nos a pensar.” 

Tem apenas um foco, a solução, e associa muito do seu sucesso à surdez que, segundo o mesmo, nunca foi uma limitação, mas uma arma poderosa. Tal como nos disse, deve tudo à mãe. A família, o núcleo duro, como lhe chama, esteve sempre presente nesta conversa, fácil, franca e apaixonada.

Pessoa de fazer, sempre em equipa e sempre em projeto, imaginando e construindo, partilhando e colaborando, só não partilha os erros, assumindo todos como se fossem só seus e aprendendo com cada um deles.

Leitor compulsivo, esta é a sua maneira de se formar, manter ativo e informado. “O meu pai obrigava-nos a ler o jornal e uma vez por semana perguntava-nos algo sobre o que tínhamos lido.”  É uma das heranças dos pais, entre muitos outros ensinamentos, que fizeram que crescesse com o sentido da integridade, da dedicação e do trabalho. Cedo “tirei a mãe da boca”, uma referência que faz ao livro de João Sousa Monteiro (um de muitos que partilhou connosco), quando nos contou que deixou a cidade de Barcelos para iniciar a sua vida profissional e, acima de tudo, para construir a sua própria personalidade e deixar de ser o filho do Augusto!

 

Homem de mil e um projetos, alguns nem ele saberá se profissionais ou pessoais, gosta de ser conhecido como o “desafiador” e não como o administrador. Quando passa, todos o reconhecem. Tem sempre uma palavra, muitas vezes sarcástica, mas com uma genuína preocupação com o próximo, pois o que o move, mais do que os projetos, são as pessoas, os recursos humanos. “Gosto que as pessoas se divirtam no trabalho e tirem o máximo partido disso.” Divertidamente é o tema recorrente da intervenção que faz na receção da Academia Glintt, um programa para estagiários. “É preciso estar bem para entregar com qualidade, para criar, para desenvolver soluções inovadoras. A mudança no mundo é enorme e temos de ter a abertura e a capacidade para nos adaptarmos”, justifica.

Agilidade mental, mas também física, está bem patente na linguagem corporal e no entusiasmo com que fala das coisas mais simples. Sempre praticou desporto e quase sempre de equipa: hóquei dos 6 anos aos 32, depois futebol e andebol e, hoje, Pilates, duas vezes por semana. O desporto permitiu-lhe ter a tensão baixa e manter-se sempre em forma, mas acima de tudo ensinou-lhe o valor de equipa, que tanto valoriza. 

As soluções aparecem-lhe naturalmente pela experiência acumulada e pelos vários projetos por onde passou, pela exposição aos mais variados desafios e dificuldades que fazem que hoje esteja, segundo o próprio, mais ativo do que nunca.

“Não consigo explicar isto, mas com a idade cada vez sinto mais capacidade. Cada vez crio mais e sou mais rápido a encontrar as soluções.”

No entanto, acrescenta, “nem tudo é perfeito. Tenho pouca paciência para burros e ladrões”. E como fazedor que é, torna-se implacável na concretização dos projetos, na hora e dentro do orçamento. Tem pouco ou nenhum tempo para recolher os louros dos mesmos: “Isso não me interessa nada... não bebo taças de champanhe, já estou com a cabeça no próximo desafio. Não há tempo para comemorações.”

Questionado sobre as gerações mais jovens, refere: “Adoro estar com eles! Temos de os saber conquistar e ouvir. Perceber o que os move, para lhes dar a oportunidade de se abrirem e mostrarem todo o seu potencial. Perceber onde e como se sentem bem.”

Mais uma vez, é o desafio mútuo de criar laços e aprender a colaborar e a estimular. “Esta geração é diferente em coisas tão normais para nós como o ter um carro. A ligação deles com o carro não é a mesma que a nossa. Preferem vir trabalhar de transportes, onde aproveitam para dormir, ler ou ouvir música.” Criar espaços que estimulem a criatividade e a interação é uma das soluções que implementou na Glintt para que as pessoas se encontrem, se divirtam, partilhem ideias e produzam mais.

O importante para Henrique Moreira é não deixar nada por fazer. Gostava de voltar a fotografar, um dos hobbies da juventude: “Já comprei o material todo!” Tem no horizonte próximo desenvolver um projeto agrícola em Penela da Beira, aldeia que adotou por casamento, e dedicar-se mais a projetos de cariz social. Ter mais netos é um desejo que também gostaria de ver cumprido.

Muito do que o inspira vem das coisas simples do dia-a-dia. O ato de lavar a loiça em casa e nas casas dos amigos mais íntimos é uma terapia. “Essa tarefa é sempre minha!” Adora o contacto com a água, que o ajuda a descontrair e a pensar. Bem como o ar puro e a tranquilidade da sua aldeia, “950 metros de altitude sem nada pela frente...”, onde, entre castanheiros e o rebanho de cabras, vai alimentando a sua força e os seus sonhos.  

Mas na realidade os olhos brilham quando fala da neta. A Clarinha é sem dúvida a sua nova musa inspiradora, não só pela ligação afetiva, mas também pela vantagem de fazer acordar a sua criança interior. “Faz-me reviver aquela fase da vida onde estamos no nosso máximo potencial da capacidade de sonhar, criar, inovar, interagir e de abertura total ao mundo.”

A família, o tal núcleo duro, onde a Lena ocupa um lugar muito especial, nunca é esquecida. “Eu tenho uma grande mulher!” A família é o seu suporte, o seu pilar, que o faz ser o que hoje é. 

No final de quatro horas de conversa, que passaram a correr e onde muito mais haveria a contar, quando lhe fizemos a pergunta incontornável – se voltasse uns anos atrás, o que mudaria na sua vida –, refere: “Nada! Apenas estou no meio da minha vida. Quero viver até aos 140 anos para poder fazer a vontade aos meus amigos e ir sossegar para Marte!”

Currículo:

Inicia a vida profissional em 1964 na Administração Fiscal, onde esteve durante 24 anos.

Entre 1989 e 1994 exerceu funções no Hospital de São José e em 1995 na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Desde fevereiro de 1996 até ao presente, trabalha no Grupo ANF, o seu porto de abrigo.