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Entrevista a Isabel Braga da Cruz

10/10/2019 | Isabel Braga da Cruz, presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa

O crescimento da esperança média de vida em Portugal ao longo das últimas décadas é uma vitória. Também a qualidade de vida desses anos adicionais tem aumentado, embora a um ritmo mais moderado, explica, em entrevista, a presidente do Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa, Isabel Braga da Cruz.

Não obstante, a académica salienta que “os resultados são evidentes” e que “hoje resolvemos com aparente facilidade problemas de saúde que seriam letais há 100 anos”. Estas “grandes vitórias” não se esgotam no conceito de saúde ao qual precisa de se aliar o bem-estar, ou qualidade de vida. “ Estas são áreas que têm vindo a interessar muito às ciências da vida e às ciências sociais, designadamente na Universidade Católica Portuguesa”.

Os portugueses vivem cada vez mais tempo. É uma das grandes vitórias das últimas décadas do nosso país?

A esperança média de vida da população mundial tem vindo a aumentar consideravelmente. Curioso é ver que Portugal tem uma esperança média de vida superior à média da União Europeia: dados oficiais demonstram que de 2000 para 2015 aumentou de 76,8 para 81,3 anos. São vários os fatores que influenciam este aumento. Desde logo, a melhoria das condições de vida, mas também a oferta de serviços de saúde de qualidade, o que permitiu a diminuição da prevalência de algumas doenças e baixou consideravelmente a taxa de mortalidade. Mas há outros fatores que terão sido determinantes, como o acesso à educação e a preocupação com a literacia na saúde: a importância da alimentação, dos estilos de vida, entre outros. Todos estes fatores melhoraram a qualidade de vida e permitiram uma cada vez maior aposta na prevenção. Embora aqui ainda haja muito trabalho para fazer.

Mas a vida não se esgota nos anos em sentido estrito, mas sim na qualidade destes e na dignidade que lhes conseguimos aportar. Nesta dimensão, há seguramente um caminho a fazer, pelo que ainda não poderá ser aclamada vitória. Mais uma vez, a promoção de literacia de saúde e a sensibilização de cada pessoa sobre o papel que pode ter na promoção do seu bem-estar são essenciais. Além disso, sabemos que os desafios inerentes ao aumento da esperança de vida das populações são muitos e tendem a necessitar de respostas para as quais a sociedade ainda não está preparada. Neste sentido, as universidades têm, quer na geração deste conhecimento, quer na sua disseminação, papéis muito importantes.

Como podemos dar mais vida aos anos adicionais que temos?

A qualidade de vida pela saúde evoluiu muito nos últimos anos e de forma muito positiva. As condições de vida atualmente são muito melhores do que eram há umas décadas. Os cidadãos passaram a ter mais e melhor acesso aos cuidados de saúde. A própria evolução da medicina e dos cuidados de enfermagem, a par dos avanços tecnológicos tiveram um reflexo muito positivo na eficácia dos medicamentos e nas terapêuticas utilizadas, proporcionando assim dar mais vida aos anos.

Não é necessário posicionarmo-nos no início do século passado, com a descoberta dos antibióticos, para esta constatação. Um exemplo é o acesso às vacinas, aberto à população em geral e todos os desenvolvimentos ao nível da prevenção de doenças, bem como o acesso a medicamentos e a tratamentos, mesmo em situações de doenças sem cura. É igualmente de realçar os importantes avanços que têm sido feitos ao nível das ciências alimentares e nutrição adequada para os diferentes tipos de população.

Os resultados são evidentes, hoje resolvemos com aparente facilidade problemas de saúde que seriam letais há 100 anos. Têm sido grandes vitórias, mas que não se esgotam no conceito de saúde ao qual precisa de se aliar o bem-estar, ou qualidade de vida. E o bem-estar passa também pela vertente física, nutricional e psicológica, as quais precisam de ser cuidadas, e adaptadas ao avançar da idade. Estas são áreas que têm vindo a interessar muito às ciências da vida e às ciências sociais, designadamente na Universidade Católica Portuguesa. Sabemos que desenvolver hábitos e estilos de vida saudáveis com atitudes equilibradas, é uma boa estratégia. Mas muitas vezes o termo “saudável” é ambíguo e além disso, não será igualmente aplicável a todos, mas sim adequado ao perfil de cada um. Por isso se fala hoje nos cuidados personalizados e adaptados às fases de vida como forma de promover mais e melhor saúde. A par dos cuidados com a saúde, a alimentação e o exercício físico, é essencial desfrutar do lazer, do contacto com a natureza, da proximidade com as artes ou da potenciação da vertente espiritual. A diversidade é uma forma de equilíbrio, e é a atitude perante a vida que atua como promotor de qualidade.

Além de hábitos saudáveis mais mensuráveis, como seja a alimentação e o exercício físico, exercitar a mente e manter relações sociais é importante?

Estar bem consigo e com os outros é fundamental, pois o eixo emocional não deve ser descurado, nem visto de forma isolada. A qualidade física e da saúde estão intimamente ligadas ao estado emocional. Esta avaliação não deve focar-se somente numa componente, mas sim numa integração de várias realidades – equilíbrio físico, emocional, intelectual e nutricional.

Que papel é que empresas e universidades, a par das IPSS, podem ter na promoção de um melhor e mais positivo envelhecimento?

O que determina a qualidade do envelhecimento são os anos que o precedem, seja qual for a faixa etária que corresponde à palavra “envelhecimento”. Portanto, é antes deste ser atingido que toda a prevenção deve ser feita. Um papel importante das universidades é investigar como se envelhece melhor e comunicá-lo à sociedade e aos decisores. As empresas têm também uma responsabilidade neste aspeto, não só ao fomentar estas ações, mas também ao implementar medidas de envelhecimento saudável nos seus quadros. Aos governantes cabe desenhar e promover medidas que visem estas metas. Na realidade, todos os setores da sociedade são precisos para que se possa melhorar a qualidade de vida.

O Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa tem promovido essa discussão. É para manter?

Sim, é para manter e reforçar. O envelhecimento é um dos grandes desafios das ciências da vida e sociais, portanto estão no centro dos nossos interesses de investigação e de divulgação. Além disso, estamos a falar de temáticas que fazem parte integrante da nossa matriz e da responsabilidade social da Universidade. Na Católica, no Porto, temos trabalhado estes temas de uma forma transversal, tanto ao nível da promoção de debates e reflexões, mas também ao nível da investigação em áreas como a Biotecnologia e Ciências da Nutrição, Educação e Psicologia ou Ciências da Saúde e Enfermagem.