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A importância do sono

23/08/2019 | Luisa Santa Clara - Psiquiatra Medica do Sono

O sono é indispensável à sobrevivência; é possível fazer greve de fome, mas não é possível fazer greve de sono, porque a morte acontece, não “apenas” por exaustão, mas decorrente do colapso imunitário. Sono e imunidade. Sono e humor. Sono e cognição. O sono é um “assunto” das 24 horas, prepara-se ao longo do dia. O que significa que devemos cuidar dos nossos hábitos de vida: boa alimentação (qualidade e frequência das refeições), prática diária de exercício físico, durante 30 minutos no mínimo (mas que deve terminar 3 horas antes de dormir), ocupação – seja profissional, seja na aposentação. Dispor de tempo para actividades lúdicas, de investimento pessoal, tempo para si próprio e para estar com os outros – família, amigos, companheiros. A importância do tempo; do tempo interior que permite relaxar, contemplar, reflectir, estabelecer prioridades e decidir.

O sono é um bom amigo das nossas competências – psicológicas e físicas. Durante o sono o cérebro trabalha para armazenar, daquilo que foi a nossa experiência diurna, o que é importante (e eliminar o que não é): só assim se mantêm preservadas e equilibradas as nossas emoções e as nossas competências cognitivas (memória, atenção, concentração, aprendizagem, juízo crítico). É também durante o sono que ocorre a reparação dos órgãos e tecidos, de forma a que permaneçam íntegros e com funcionamento normal. Tensão arterial, ritmo cardíaco, produção hormonal, são exemplos de processos que têm um ritmo próprio durante o dia e outro, diferente, durante a noite. E não mudam de horário só porque nós decidimos dormir a horas diferentes; seja por motivo de trabalho por turnos, jet-lag, ou por maus hábitos de sono/ vida, a irregularidade do ciclo de sono/ vigília causa sempre problemas de saúde (física ou mental). Por outro lado, não é possível repor totalmente uma noite de privação de sono, mesmo que nos deitemos para dormir durante o dia seguinte.

O Homem, sendo um animal diurno, é o único Ser Vivo que contraria o ritmo de sono, utilizando artifícios para se manter acordado durante a noite, quando deveria estar a dormir. Pelo contrário, tenta a todo o custo dormir, mesmo sem sono, por vezes permanecendo acordado, durante horas, na cama (o que ainda o impede mais de adormecer). É frequente – mas não é normal – o consumo de “medicamentos para dormir”, muitas vezes em auto-medicação, sem antes procurar saber as causas da insónia. Muitos destes fármacos, porque alteram a estrutura do sono, condicionam dificuldades cognitivas; entre as queixas mais frequentes surge a de “falta de memória”, tantas vezes considerada “normal para a idade…” (a perda de memória nunca é “normal para a idade”). Mas também aumentam muito o risco de quedas durante o dia, pela sedação que causam.

É importante saber que à medida que avançamos na idade, a capacidade de manter um sono ininterrupto diminui significativamente; ou seja, é normal termos despertares durante a noite, que serão breves e o readormecer fácil; por outro lado, há uma tendência fisiológica para termos sono mais cedo e acordarmos também mais cedo.

O mais importante é que, de manhã, ao acordarmos, tenhamos a sensação de descanso que resulta de um sono de qualidade; importa não só o nº de horas de sono, mas a qualidade deste; porque, se não temos todos de dormir “8 horas/ noite”, também não se “treina” para dormir menos do que o nosso corpo nos pede… O que existe é uma determinação genética (em menos de 1% da população) para algumas pessoas só necessitarem de 6 horas (ou menos) de sono/ noite e não adoecerem nem terem queixas decorrentes de pouco ou mau sono; e para outras pessoas, pelo contrário, necessitarem de dormir 10 ou mais horas/ noite, sem as quais não se sentem descansadas. Cerca de 98% da população entre os 18 e os 64 anos necessita de 7 a 9 horas de sono/ noite; a partir dos 65 anos o limite superior passa para 8 horas. Portanto, os mais velhos não precisam de dormir menos…

Se existe um problema de sono, este tem de ser estudado e tratado, porque a privação de um sono de qualidade é, por si mesma, um factor de risco para as principais causas de morbilidade crónica e mortalidade – doenças cardio-vasculares, obesidade, diabetes, depressão. Vigília e sono constituem um ciclo de 24 horas, que deve ser respeitado nas suas duas componentes, intimamente ligadas e interdependentes. A exposição à luz solar durante o dia, a prática de exercício físico regular (sempre que possível ao ar livre), a manutenção de ocupações que impliquem treino cognitivo, sejam prazenteiras e permitam manter a socialização, são algumas “regras de ouro” numa fase da vida que traz consigo, pelas mais variadas razões, grandes mudanças na vida de relação.

PRIORIZAR é, talvez, a palavra-chave para o nosso bem-estar ao longo da vida e para assumirmos responsabilidade individual na preservação da saúde e prevenção de doenças crónicas e incapacitantes.